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11.11.2014

Joanna, the ballerina, resting as we talk, 2014

Uma razão do cinema, outra da fotografia, é esta, que me mantém em diálogo com ambos.

«O gesto não é um elemento absolutamente não linguístico, mas algo que mantém com a linguagem uma relação mais íntima e, sobretudo, uma força que opera na própria língua, mais antiga e originária do que a expressão conceptual: gesto linguístico (Sprachegebärde)» 

Giorgio Agamben, 'A potência do pensamento'

21.09.2014

hunting butterflies, studies of gesture, 2014


«he practices a cult with the moths and butterflies that fly into his room at night. he speaks to them for hours. He calls them his little soul animals (seelentierchen) and tells them about his suffering...»

Philippe-Alain Michaud, 'Aby Warburg and the Image in Motion'



03.08.2014

intimate nudes, 2014


«Não é a lassitude que põe termo ao amor, ou antes, esta lassitude nasce da impaciência, da impaciência dos corpos que se sabem condenados e que gostariam de viver, que gostariam, no lapso de tempo que lhes cabe, de não deixar escapar nenhuma ocasião, de não deixar escapar nenhuma possibilidade, que gostariam de utilizar ao máximo este tempo de vida limitado, em declínio, medíocre, que é o seu, e que portanto não conseguem amar quem quer que seja, pois todos os outros lhes parecem limitados, em declínio, medíocres.»

Michel Houellebecq, 'A Possibilidade de uma Ilha'
Greek statue, British Museum, 20.Jan.14
self, workplace, 27.Jan.14

Obsessed with being, and forgetful of the perspectivism of my experience, I henceforth treat it as an object and deduce it from a relationship between objects. I regard my body, which is my point of view upon the world, as one of the objects of that world. My recent awareness of my gaze as a means of knowledge I now repress, and treat my eyes as bits of matter. They then take their place in the same objective space in which I am trying to situate the external object and I believe that I am producing the perceived perspective by the projection of the objects on my retina. In the same way I treat my own perceptual history as a result of my relationships with the objective world; my present, which is my point of view on time, becomes one moment of time among all the others, my duration a reflection or abstract aspect of universal time, as my body is a mode of objective space.”  

Maurice Merleau-Ponty, 'Phenomenology of Perception'


«the life of a wild animal becomes an ideal, an ideal internalised as a feeling surrounding a repressed desire. The image of a wild animal becomes the starting-point of a daydream: a point from which the day-dreamer departs with his back turned.»

John Berger, ' Why Look at Animals?"

 2013


Em que se ocupa de manhã à noite? 
Tolero-me.

E. M. Cioran, 'Do inconveniente de ter nascido'



22.6.2013, Lisbon

Salmo 42 

A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.

Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?

Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.

Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,

entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.

Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?

Porquê gemer e não cantar Aquele

onde se apoia a tua face? 

Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.

O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes

caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.

Nascia-me de ti um canto tumultuoso,

longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.

- Onde está o Deus vivo? – perguntam-me os frios de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.

Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?

Porquê gemer e não cantar Aquele

onde se apoia a tua face? 

Onde está o Deus vivo, que se não esgota

o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo e peço que revele a sua luz.

Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.

Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?

Porquê gemer e não cantar Aquele

onde se apoia a tua face?

“O bebedor nocturno”, poemas mudados para português por Herberto Helder
Europa   Humanidade    (fugue #1)


Nenhum medo e todo o perigo. 
Diante, adiante, dentro, lunaticamente consciente dele e o calafrio que sobe já não é o da animalidade medrosa, mas dessa outra excitação de pré-domínio sobre o que (aquele que) está prestes a dominar. “Dominar-se”, mas não ao eu central da história, é antes uma forma sintética que em jeito de Haiku chega a ser um pouco poética — deixar-se, abandonar-se a esse centro de domínio que enfim recairá sobre a sua cabeça.



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«O homem existe historicamente apenas nesta tensão: pode ser humano somente na medida em que transcende e transforma o animal antropóforo que o sustém, apenas porque através da acção que nega é capaz de dominar e eventualmente destruir a sua própria animalidade» (...) «Talvez o corpo do animal antropóforo (o corpo do servo) seja o resto não resolvido que o idealismo deixa em herança ao pensamento e as aporias da filosofia no nosso tempo coincidam com as aporias deste corpo irredutivelmente tenso e dividido entre animalidade e humanidade.»

Giorgio Agamben, Mysterium disiunctionis, 'O Aberto'



«What must I be, I who think and who am my thought, in order to be what I do not think, in order for my thought to be what I am not? What is this being, then, that shimmers and, as it were, glitters in the opening of the cogito, yet is not sovereignly given in it or by it? What, then, is the connection, the difficult link, between being and thought?»

Foucault, 'Order of Things'

sonho aparência não-ser

                                                                                                                                                                                      Barcelona, 2013

«Quanto mais me dou conta, nomeadamente na natureza, daqueles impulsos todo-poderosos e neles de um ardente desejo de aparência, tanto mais me sinto impulsionado a adoptar a hipótese metafísica de que o Ser verdadeiro e Uno primordial, enquanto entidade eternamente sofredora e contraditória, necessita simultaneamente, para a sua permanente redenção, da sedutora visão, da deleitosa aparência: essa mesma aparência que nós, completamente presos nela e por ela constituídos, nos vemos obrigados a sentir como sendo o verdadeiro Não-ser, isto é, um constante devir em tempo, espaço e causalidade, por outras palavras, como realidade empírica. Se portanto nos abstrairmos por um momento da nossa própria "realidade", se concebermos a nossa existência empírica e a do mundo em geral, como uma representação do Uno primordial, então o sonho tem de surgir-nos como a aparência da aparência, e assim como uma satisfação da sede primitiva de aparência.» 

Nietzsche, 'O Nascimento da Tragédia'

«Le mouvement consiste visiblement à passer d'un point à un autre, et par suite à traverser de l'espace. Or l'espace traversé est divisible à l'infini, et comme le mouvement s'applique, pour ainsi dire, le long de la ligne qu'il parcourt, il paraît solidaire de cette ligne et divisible comme elle. Ne l'a-t-il pas dessinée lui-même? N'en a-t-il pas traversé, tour à tour, les points successifs et juxtaposés? Oui sans doute, mais ces points n'ont de réalité que dans une ligne tracée, c'est-à-dire immobile; et par cela seul que vous vous représentez le mouvement, tour à tour, en ces différents points, vous l'y arrêtez nécessairement; vos positions successives ne sont, au fond, que des arrêts imaginaires. Vous substituez la trajectoire au trajet, et parce que le trajet est sous-tendu par la trajectoire, vous croyez qu'il coïncide avec elle. Mais comment un progrès coïnciderait-il avec une chose, un mouvement avec une immobilité?»


Henri Bergson, 'Matière et memoire'






(I am multiple - self portraits in the dusk #2)

«Watt era também muito naturalmente da mesma cor escura. Esta cor escura era tão escura que não podia ser identificada com certeza. Por vezes parecia uma escura ausência de cor, uma mistura escura de todas as cores, um branco escuro. Mas Watt não gostava das palavras branco escuro, por isso continuava a chamar à sua escuridão uma cor escura, pura e simplesmente, o que estritamente falando não era, ao ver-se que a cor era tão escura que desafiava toda e qualquer identificação.»

Samuel Beckett, 'Watt'






«Se tocares (puseres as mãos) no vestígio, algo, afastado dali, se sentirá tocado, interrompido no seu percurso, agarrado. Ou ao contrário? Se agarrares o vestígio, aquilo que lhe deu origem aumentará, algures, a sua velocidade?
O relevante, o pressentimento: interferir nos vestígios é interferir na coisa que lhes deu origem.»  

Gonçalo M. Tavares, 'Breves Notas sobre as Ligações'
«A nossa vida é esse ataque vindo de fora, por mãos ocasionais, e que, descobrindo-nos que não somos "nós próprios" (com tudo o que, à nossa volta, nos dá essa segurança unitária), nos obriga a reconhecermo-nos "nós outros", "nós múltiplos", conforme as ocasiões e conforme as circunstâncias.»

(I am multiple - self portraits in the dusk #1)


«A nossa realidade é feita da existência virtual que todos temos nos outros e em nós próprios, e só dela. Isso, que me fez estremecer de pânico, deu-me imediatamente uma consciência de liberdade pavorosa: a liberdade humana era exactamente essa virtualidade hipotética que, nos outros e em nós, nos resguarda de sermos. ... E a liberdade era isso, sim, era isso: um corpo absoluto que se tornava, mais que humano, uma coisa mais que coisa; ou a virtualidade total de não sermos senão aquilo que, na virtualidade dos outros, nos dava a realidade de uma irrealidade absoluta também.»

Jorge de Sena, 'Sinais de Fogo'
(I am multiple - self portraits in the dusk #3)

O que se nos oferece com a luz das estrelas, 
o que se nos oferece,
guarda-o como mundo na tua face,
não o tomes de leve.

Mostra à Noite que recebeste calmo
o que ela trouxe.
Só quando de todo para ela passes
a Noite te conhece.

Rainer Maria Rilke
'women alone in the dark' (series)
























«Acendo a luz num quarto escuro; é um facto que o quarto iluminado já não é o quarto escuro, que perdi para sempre. E no entanto: não será ainda o mesmo quarto? Não será o quarto escuro o único conteúdo do quarto iluminado? Aquilo que não posso ter, aquilo que, ao mesmo tempo, recua até ao infinito e me empurra para diante, não é mais que uma representação da linguagem, o escuro que pressupõe a luz; mas se renuncio a captar esse pressuposto, se volto a atenção para a própria luz, se a recebo ⎯ então aquilo que a luz me dá é o mesmo quarto, o escuro não hipotético. O único conteúdo da revelação é aquilo que é fechado em si, o que é velado  a luz é apenas a chegada do escuro a si próprio.»



Giorgio Agamben, "Ideia da luz", in 'Ideia da Prosa' (Tradução: João Barrento; Cotovia, Lisboa, 1999)

Words: Equivalent

Ansel Adams Master Photographers
, BBC series (1983)

QYou're very concerned with mood, obviously...
Ansel Adams: Well, that's part of the visualization, the aesthetics. Aesthetic in emotional statement. I think it might be helpful to you to quote that Stieglitz statement, when someone asked him:
"Stieglitz, we don't understand this talk about creative photography and creativity, with a mechanical medium. How do you make a creative photograph?" ― And he replied that he was interested to "go out in the world with his camera, he'd become across something that excited him emotionally, spiritually and aesthetically" ― forget all those words, they don't mean much, they're just symbols of something much deeper - "and I see the picture in my mind's eye. I make the photograph and I give you the print as the equivalent of what I saw and felt." ― And that word equivalent is really profound because it is the equivalent of two things: what he saw and what he felt about it.




«O que me seduz é esta figura extra-humana que se entranhou em mim, numa hora excepcional, para aplaudir ou reprovar as minhas acções e os meus pensamentos; sobretudo os meus pensamentos, porque as acções pouco valem. Não pecar por obras é fácil. Não custa deixar de roubar ou de matar. Quem não é ladrão e assassino em pensamento? A alma comete crimes que o corpo não se atreve a praticar. A alma é a sombra que o corpo emite para dentro. Quer escondê-la. A sombra que projectamos sobre a terra é uma vaga figuração ilusória e inofensiva: a imagem dum tigre num espelho.»


 Teixeira de Pascoaes, 'O Bailado'