(M. for the life series, 2012)


il n'y a que des arrêts imaginaires








«Le mouvement consiste visiblement à passer d'un point à un autre, et par suite à traverser de l'espace. Or l'espace traversé est divisible à l'infini, et comme le mouvement s'applique, pour ainsi dire, le long de la ligne qu'il parcourt, il paraît solidaire de cette ligne et divisible comme elle. Ne l'a-t-il pas dessinée lui-même? N'en a-t-il pas traversé, tour à tour, les points successifs et juxtaposés? Oui sans doute, mais ces points n'ont de réalité que dans une ligne tracée, c'est-à-dire immobile; et par cela seul que vous vous représentez le mouvement, tour à tour, en ces différents points, vous l'y arrêtez nécessairement; vos positions successives ne sont, au fond, que des arrêts imaginaires. Vous substituez la trajectoire au trajet, et parce que le trajet est sous-tendu par la trajectoire, vous croyez qu'il coïncide avec elle. Mais comment un progrès coïnciderait-il avec une chose, un mouvement avec une immobilité?»


Henri Bergson, 'Matière et memoire'






(I am multiple - self portraits in the dusk #2)

«Watt era também muito naturalmente da mesma cor escura. Esta cor escura era tão escura que não podia ser identificada com certeza. Por vezes parecia uma escura ausência de cor, uma mistura escura de todas as cores, um branco escuro. Mas Watt não gostava das palavras branco escuro, por isso continuava a chamar à sua escuridão uma cor escura, pura e simplesmente, o que estritamente falando não era, ao ver-se que a cor era tão escura que desafiava toda e qualquer identificação.»

Samuel Beckett, 'Watt'






«Se tocares (puseres as mãos) no vestígio, algo, afastado dali, se sentirá tocado, interrompido no seu percurso, agarrado. Ou ao contrário? Se agarrares o vestígio, aquilo que lhe deu origem aumentará, algures, a sua velocidade?
O relevante, o pressentimento: interferir nos vestígios é interferir na coisa que lhes deu origem.»  

Gonçalo M. Tavares, 'Breves Notas sobre as Ligações'
«A nossa vida é esse ataque vindo de fora, por mãos ocasionais, e que, descobrindo-nos que não somos "nós próprios" (com tudo o que, à nossa volta, nos dá essa segurança unitária), nos obriga a reconhecermo-nos "nós outros", "nós múltiplos", conforme as ocasiões e conforme as circunstâncias.»

(I am multiple - self portraits in the dusk #1)


«A nossa realidade é feita da existência virtual que todos temos nos outros e em nós próprios, e só dela. Isso, que me fez estremecer de pânico, deu-me imediatamente uma consciência de liberdade pavorosa: a liberdade humana era exactamente essa virtualidade hipotética que, nos outros e em nós, nos resguarda de sermos. ... E a liberdade era isso, sim, era isso: um corpo absoluto que se tornava, mais que humano, uma coisa mais que coisa; ou a virtualidade total de não sermos senão aquilo que, na virtualidade dos outros, nos dava a realidade de uma irrealidade absoluta também.»

Jorge de Sena, 'Sinais de Fogo'