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«Watt era também muito naturalmente da mesma cor escura. Esta cor escura era tão escura que não podia ser identificada com certeza. Por vezes parecia uma escura ausência de cor, uma mistura escura de todas as cores, um branco escuro. Mas Watt não gostava das palavras branco escuro, por isso continuava a chamar à sua escuridão uma cor escura, pura e simplesmente, o que estritamente falando não era, ao ver-se que a cor era tão escura que desafiava toda e qualquer identificação.»
Samuel Beckett, 'Watt'
«Se tocares (puseres as mãos) no vestígio, algo, afastado dali, se sentirá tocado, interrompido no seu percurso, agarrado. Ou ao contrário? Se agarrares o vestígio, aquilo que lhe deu origem aumentará, algures, a sua velocidade?
O relevante, o pressentimento: interferir nos vestígios é interferir na coisa que lhes deu origem.»
Gonçalo M. Tavares, 'Breves Notas sobre as Ligações'
«A nossa vida é esse ataque vindo de fora, por mãos ocasionais, e que, descobrindo-nos que não somos "nós próprios" (com tudo o que, à nossa volta, nos dá essa segurança unitária), nos obriga a reconhecermo-nos "nós outros", "nós múltiplos", conforme as ocasiões e conforme as circunstâncias.»
«A nossa realidade é feita da existência virtual que todos temos nos outros e em nós próprios, e só dela. Isso, que me fez estremecer de pânico, deu-me imediatamente uma consciência de liberdade pavorosa: a liberdade humana era exactamente essa virtualidade hipotética que, nos outros e em nós, nos resguarda de sermos. ... E a liberdade era isso, sim, era isso: um corpo absoluto que se tornava, mais que humano, uma coisa mais que coisa; ou a virtualidade total de não sermos senão aquilo que, na virtualidade dos outros, nos dava a realidade de uma irrealidade absoluta também.»
Jorge de Sena, 'Sinais de Fogo'
«Acendo a luz num quarto escuro; é um facto que o quarto iluminado já não é o quarto escuro, que perdi para sempre. E no entanto: não será ainda o mesmo quarto? Não será o quarto escuro o único conteúdo do quarto iluminado? Aquilo que não posso ter, aquilo que, ao mesmo tempo, recua até ao infinito e me empurra para diante, não é mais que uma representação da linguagem, o escuro que pressupõe a luz; mas se renuncio a captar esse pressuposto, se volto a atenção para a própria luz, se a recebo ⎯ então aquilo que a luz me dá é o mesmo quarto, o escuro não hipotético. O único conteúdo da revelação é aquilo que é fechado em si, o que é velado ⎯ a luz é apenas a chegada do escuro a si próprio.»
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